A criatividade como valor humano

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Para inovar é preciso mudar os valores da empresa, começando a entender que a criatividade é um valor humano e não pode ser ensinada

Como pessoa criativa e profissional criativa – sim há diferenças – temo que, se as empresas não entenderem que só há inovação em um ambiente onde a criatividade é vista como um valor – portanto permitida, incentivada e valorizada – todo e qualquer investimento em pessoas ou departamentos no que tange “o desenvolvimento de colaboradores que criam ou que tragam ideias diferentes” pode ir por água abaixo.

Para entender como tornar o ambiente de sua empresa um espaço que permite a criatividade das pessoas, você deve entender a diferença entre pessoas criativas e profissionais criativos, a importância de uma atmosfera propícia à expressão de ideias e a compreensão de que criatividade não é algo que pode ser ensinado, pois é uma expressão humana e autêntica, logo, de alto valor. 

Pessoa criativa e profissional criativo

Isso gera discussão sempre que falamos “os criativos” em uma roda onde o tema é a criatividade. E às vezes até briga porque simplesmente não há o entendimento do que é uma pessoa criativa e o que é um profissional criativo. É simples. 

Pessoa criativa é aquela que consegue expressar suas ideias diferenciadas quando se tem a oportunidade e espaço para isso. É uma pessoa que vai dizer as coisas que viu, ouviu, sentiu, criou dentro de si. É uma pessoa que consome o que ela quer, e consegue provar a importância desse repertório para um projeto, uma ideia ou um negócio. Ela não teme compartilhar, criticar e traz o seu ponto de vista pra roda. 

Profissional criativo é um especialista que aprendeu técnicas para transformar ideias em algo real, tangível em que se almeja um determinado resultado como, por exemplo, uma música (através dos instrumentos musicais), uma fotografia (através de uma máquina fotográfica), uma pintura (através de pincel e tinta), um site (através de códigos), e por aí vai. Ou seja, é um especialista que usa uma ou mais “ferramentas técnicas” para chegar a um objetivo. É claro, que, há uma tendência dos profissionais criativos em serem também pessoas criativas, afinal, uma das coisas que atrai os que entram para a Indústria Criativa é exatamente essa: a possibilidade de criar e trazer sua autoria (ou voz) no trabalho a ser executado.

Por isso, antes de sair investindo, é importante entender o que a empresa deseja: desenvolver pessoas a serem mais criativas, ou seja, a se expressarem mais, a ter permissão para trazer sua voz, a ter mais autonomia, mais liberdade e diversidade quanto a ideias, ou, a empresa deseja treinar pessoas para desenvolverem habilidades técnicas criativas para que possam criar mais soluções inovadoras embasadas em conhecimento prático? 

A criatividade não pode ser ensinada 

 Algo que sempre me incomodou é ouvir “especialistas” dizendo que criatividade é algo a ser ensinado. Eu acho isso um terreno perigoso que pode levar muita gente a frustração. Seja porque a pessoa estará o tempo todo se “avaliando como uma pessoa criativa ou não” ao comparar suas ideias com as dos outros, ou, caso ela começar a “mostrar sua voz” mediante o seu repertório atual, será inibida pelo ambiente ao seu redor, seja porque não há espaço para ouvir ideias contrárias, de risco, estranhas ou de outra “bolha”. Não se ensina a ser criativo, se permite ou não, ser criativo. 

Vou explicar o por quê. Ensinar é você explicar como algo deve ser feito esperando chegar em um determinado resultado. Caso esse resultado saia diferente, ou você não aprendeu a fazer direito ou instrutor não ensinou direito.

Um exemplo prático: uma receita. Alguém te ensina a fazer uma receita na qual, ao juntar os ingredientes você deverá obter um sabor e aparência desejada. Se o resultado não ficar exatamente como foi “ensinado”, alguma coisa deu errado, você, a receita, os ingredientes, ou o chef da receita. Isso não é criatividade. Isso é repetição. Ensinar é repetir fórmulas testadas e aprovadas, como uma receita, uma conta, uma planilha, um post pra rede social, a produção de leite numa fazenda. Isso não é criatividade, isso é re-produção.

No mundo dos criativos chamamos de aprendizado tudo aquilo que envolve o aprendizado de técnicas que, ao serem aplicadas, funcionam e entregam resultados. Isso não é criatividade, isso é técnica criativa que alguém ensinou. Técnicas criativas são técnicas usadas para transformar uma ideia em algo tangível. 

Portanto, criatividade, no âmbito das ideias, tem a ver com o que cada um é, suas histórias, suas vivências, sua forma de ver o mundo. E é a junção de dois ou mais mundos – ou membros de uma equipe – que traz à tona as ideias criativas. Esses dois mundos diferentes podem estar na sua cabeça e você criar algo incrível sozinho? Sim, mas note que, foi você, sendo você quem decidiu suas próprias referências, onde decidiu explorar, de acordo com suas características e personalidade, e não alguém dizendo “consuma isso ou aquilo” para ser mais criativo. Se alguém te sugeriu ver algo novo, isso não é ensinar criatividade, isso é sugestão de experimentação que, inclusive, pode ou não trazer mais ideias.

Entende por que criatividade, no âmbito das ideias, não é algo que pode ser ensinado? Não há certezas de que se você consumir tais e tais coisas, trará aquelas referências, porque talvez elas não façam sentido para quem você é ou como você pensa, e, se fizer sentido, terá sido uma experimentação que passou por um filtro chamado: VOCÊ. Se a gente adotar a ideia de que criatividade pode ser ensinada, voltaremos ao passado: um bando aprendendo Como Ser Mais Criativo e se tornam iguais criativamente. Por isso, ensinar criatividade é uma bobagem. 

“Ter criatividade expressa em ideias é ter, antes de tudo, a liberdade de ser quem você é, com suas referências, vivências, escolhas.”

Agora, se estamos falando de ensinar criatividade tecnicamente, aí sim, faz todo sentido, pois isso pode ser ensinado. E, se a intenção da empresa ou negócio for trabalhar com 100% de profissionais criativos, é extremamente importante trazer essa cultura de valorização da criatividade, para que as ideias desses criativos especialistas venham à tona. Porque o que vemos hoje são profissionais criativos não sendo pessoas criativas por conta do ambiente ou do estilo de liderança ou de gestão dos setores em que atuam. O resultado? Acabam se tornando meros técnicos criativos, que, na primeira oportunidade irão criar startups ou ser freelancers onde poderão ter voz, liberdade, autonomia e, finalmente, serem criativos em sua totalidade – mente e técnica.

Portanto, antes de sair treinando equipes para serem mais criativas, é preciso enxergar a criatividade como um valor humano dentro da empresa. Parece até meio maluco pensar que ainda, em muitos ambientes como educação, trabalho, lugares públicos ou até privados, ainda somos impedidos de ser algo que faz parte do ser humano. E um ser humano que não se expressa, é um ser humano morto por dentro – o que dirá, ser criativo. 

 Diagnóstico e um caminho sem volta 

Uma pessoa criativa é alguém que se expressa e traz coisas que viu, ouviu, sentiu, criou dentro de si e compartilhou. Sua empresa dá essa liberdade de expressão verdadeiramente? Uma pessoa criativa vai querer testar coisas que muita gente não vai entender, gostar ou achar bom. Sua empresa permite possíveis rejeições por parte do público? Uma pessoa criativa irá pensar e executar a ideia sem medo. Sua empresa se permite correr riscos?

Um exemplo do mundo da música que representa bem essas três perguntas é a música “Bohemian Rhapsody”, do Queen, que só existiu porque tinham elementos para uma ideia criativa sair do papel: profissionais criativos e liberdade de criação de pessoas criativas. A banda teve liberdade de expor o que estava dentro deles, recebeu feedbacks muito negativos, após a divulgação e, ainda assim, acreditavam na obra-prima que criaram e, por isso, estavam prontos para correr o risco e serem rejeitados – embora isso fosse 0% de possibilidade na cabeça deles. Fazia sentido para eles aquela criação muito bem trabalhada e orquestrada, ainda, que não desse certo por alguma razão. Logo, se na sua empresa não há espaço para todas essas condições, não há espaço para criatividade existir, e muito menos, pessoas criativas.

Comece criando ambientes de testes de participação geral da equipe e do público, promova atividades ou proponha desafios que estimulem as expressões humanas de seus colaboradores e clientes, permita que ideias sejam colocadas em prática, não apenas a que foi escolhida pelos cabeças, dê oportunidade para aquelas plurais e pouco prováveis de dar certo também. Para isso, treine seus colaboradores para serem técnicos criativos e saberem mostrar o que querem dizer. Assim, ao invés de rejeitar ideias, você vai transformá-las em realidade e, se for algo realmente diferente, arrisque, comunique, distribua e veja o resultado antes de descartar – no mínimo, terá um super estudo aplicado e testado.

Também incentive e permita o contato direto das ideias de todos com os profissionais criativos, afinal, dar ideias criativas sem a participação deles é como fazer um bolo de quiabo. Sem um técnico criativo para ampliar e construir a criação – neste caso, um chef de cozinha – que irá lhe dizer as possibilidades e probabilidades do que pode ser feito, do dinheiro investido, à criação em si, o tempo de dedicação, ferramentas, etc –  daquilo que se imaginou se tornar tangível. Por isso, invista em profissionais criativos, além de uma equipe de pessoas criativas. É um combo poderoso e que abre espaço para todos.

E tenha consciência de que criatividade é algo tão poderoso que pode transformar tudo. E transformação é mudança. Mudança é risco. Risco é algo que o ser humano não sabe lidar muito bem, ou pelo menos algumas pessoas e empresas. E confesso que ainda tenho dúvidas se o mundo está realmente preparado para pessoas criativas e se as empresas estão realmente preparadas para lidar com esse ambiente de pessoas criativas.

“Ao meu ver, temos duas missões para que a cultura da inovação aconteça: a de estimular as ideias criativas e a de estar preparado para criar essas ideias. E, claro, ter a consciência de que o resultado é sempre incerto e, assim como é a vida, imprevisível.”

> Artigo Ih!Criei publicados no portal Whow.

Arte da capa: Yukai Du

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Patricia Bernal

Sobre Patricia Bernal

Sou fundadora e curadora do portal IH!CRIEI, apaixonada pela transformação que a criatividade humana pode impactar! Atualmente estudo o mercado criativo, transformação digital e tudo que envolve inovação em gestão e negócios criativos. Sou Jornalista, Fotógrafa, Filmmaker, Educadora e Palestrante, além de pesquisadora autônoma. Dentro de nossa classificação pra Economia Criativa, sou da área de Comunicação Instantânea, com especialização em conteúdo Multimídias e em StoryMídias, com especialização em Audiovisual. "Espero contribuir com um conteúdo que inspire e ajude as pessoas a fazer um melhor proveito da criatividade, gestão e autonomia de carreira e negócios nas áreas criativas e no mundo digital". Se quiser conhecer um pouco de meu olhar criativo, acesse www.patriciabernal.me

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