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Sobre Letícia Diniz

Multipontencial desde quando esse percurso formativo não era compreendido pelo mercado (e por nossos pais). Doutoranda em Comunicação e Semiótica, mestre em Planejamento Territorial, especialista em Marketing e bacharel em Design e Direito. Atua na docência, consultoria e mentoria de projetos e negócios da Economia Criativa para transformação da criatividade em ativo financeiro. Curiosa e proativa. Gosta de gente mais que de coisas.

Você sabe precificar o valor da sua criatividade?

Há uma relação historicamente tensa entre criatividade e dinheiro. Precificar o valor de um trabalho criativo pode ser um parto a cada proposta de orçamento a ser feita. Por ser um serviço que contém em seu preço final, além do trabalho em si (horas dedicadas + custo operacional), um valor SIMBÓLICO que mistura desde a criação, o nome e posicionamento do artista no mercado, o tempo, a especialidade e a originalidade, precificar um produto/serviço criativo é sempre uma grande dificuldade. Há uma série de razões para esses obstáculos e, neste artigo, te ajudarei a avaliar quais são os seus.

DINHEIRO, DINHEIRO, DINHEIRO

Segundo John Hegarty, publicitário e autor do livro Hegarty on Creativity (Thames & Hudson), muito criativos destroem suas carreiras porque estão atrás do dinheiro, e não o veem como uma consequência. Outros destroem pelo oposto: acreditam que “quem vende sua arte, perde sua essência criativa”. Que confusão, hein?

Seja qual for a sua motivação e intenção para estar dentro do mercado criativo, preste atenção nestas palavras de Hegarty. “Dinheiro é uma ferramenta, não uma filosofia de vida. Se você cria algo que o mundo quer, admira ou fala sobre, algo que ajuda na imaginação, no se sentir bem emocionalmente ou fisicamente, o dinheiro vai fluir em sua direção, como uma ferramenta, lembre-se”. Portanto, primeiro ponto: se você se enxerga o dinheiro como algo que representa quem você é, você vai sofrer com a posse ou não dele. Segundo, quem trabalha com criatividade deve enxergar o dinheiro como uma consequência do que se cria. Se você cria algo que o mundo quer, decide “vender” e alguém paga por isso, o dinheiro entra, se não entra é porque ou você não quer vender ou ninguém tem interesse no que você criou. E o que isso toda essa reflexão tem a ver com precificação? TUDO.

Supondo que você tenha habilidades em uma determinada área criativa. Já desenvolveu uma especialidade. Está a serviço do mercado, pronto para servir. Como é que você atua no seu processo criativo ao ser contratado/solicitado para um trabalho? Há duas maneiras que gostaria de pontuar: a primeira, é o criativo que se cala mediante um trabalho de criação, não aponta erros e possibilidades, não sugere nada, não dá ideias e não mostra os possíveis caminhos de uma criação, apenas executa o que foi solicitado. Para esse grupo de criativos, sim, o dinheiro talvez esteja matando a sua arte – sua contribuição para aquela criação – e você passa a não gostar dele, ver como um inimigo ou um problema, não uma ferramenta. Agora, se você, ao ser contratado para um job, mostra suas ideias, pontos de vista e dialoga para chegar a um melhor resultado, e recebe por esse trabalho, ai não há como dizer que a arte/criação não tem essência ou que se perdeu pelo dinheiro, afinal, você contribuiu para que aquela criação existisse, logo, enxerga o dinheiro como “recompensa” pela sua criação e o prazer é em dobro: sua voz no projeto e dinheiro no bolso para pagar suas contas.

Compreende a diferença que faz você expor a SUA voz como criativo? Lembre-se: você é o especialista. Você estudou para executar uma ideia e é por isso que você está sendo pago ou contratado. Não importa sua técnica, se é “intuitiva” ou “genial”, se ela contribui para transformar uma ideia em algo tangível que agrade as pessoas, esse é o caminho. Por isso, POR PRA FORA SUA VOZ é o primeiro passo para que a arte nunca se perca em meio ao dinheiro-ferramenta. Aliás, ela irá ajudar muito na precificação de suas criações.

E, caso sua voz não tenha espaço onde você atua – seja em um mercado de trabalho, uma empresa ou qualquer grupo que você esteja, MUDE. Mude de emprego, recuse o trabalho, vá atrás de outros ou outras pessoas que queiram ouvir o que você tem a aconselhar/orientar na criação, melhore seu posicionamento no mercado expondo suas ideias e suas criações, faça com que as pessoas as entendam comunicando-se melhor, empreenda se esse for o seu perfil, só não se perca em meio ao seu talento por conta das questões com dinheiro. Ele é uma ferramenta. Aprenda a usar ele a seu favor. Para isso, faça um análise, do parágrafo abaixo com atenção.

Como está sua vida financeira e sua relação com o dinheiro?

Se entra dinheiro e te faz bem, indica que você está vendendo seu talento sem perder sua essência. Se entra e te faz mal, você está vendendo seu talento, mas perdendo sua essência/voz. Se não entra é porque você não está vendendo seu talento bem, ainda que ele tenha sua voz, não é suficiente para o que mundo precisa ou você não achou seu nicho. E por último, se não entra, é porque você não está vendendo seu talento, porque não está trazendo sua voz ou porque não enxerga sentido no que faz, pra que vender, né? Repense esse parágrafo, e veja AONDE você se encontra neste momento.

DEVEMOS DEIXAR NOSSAS CRIAS VOAREM

Nossa arte é a nossa CRIA. Ela sai de nós e deve ganhar asas, mas se fica o zelo e o excesso de protecionismo é difícil deixar voar. Uma parte de nossa dificuldade em expor a nossa VOZ vem de um hábito de querer monitorar a trajetória como se pudéssemos escolher o design da sala do comprador do nosso quadro ou os comentários interpretativos da audiência do nosso filme ou, ainda, a combinação dos looks de quem veste nossa moda. Talvez por isso, seja tão difícil nos despreendermos de nossas criações, elas estão sempre faltando um último toque final (que quase nunca acontecerá). Portanto, se não mudamos a forma como pensamos, não mudaremos nossos hábitos e o ciclo de limitação persiste, se não apreendermos a desapegar, talvez nossa criação nunca voará. E aí, dinheiro vai ser a última coisa que você terá.

Isso acontece, dentre outros motivos porque a criação tem um VALOR SIMBÓLICO, ela exprime nosso humor, nossos valores, nossa autenticidade, é uma marca nossa no mundo. Então, se nossa criação tem um valor simbólico inestimável, e aceitamos que queremos compartilhar com o mundo, como precificar ?

CAMINHOS PARA PRECIFICAR O VALOR SIMBÓLICO

O primeiro passo é desenvolvermos uma relação de autovalorização e desprendimento. Pense: um pouco de seus valores, de sua verdade estará interagindo com outrem. Pessoas com percursos imprevisíveis e isso, provavelmente, ressignificará sua criação e demarcará sua ação criativa criando um novo sistema simbólico. Isso estará fora do seu controle. Sua criação dará crias! Supere isso. Mas, há variáveis controláveis que podem te ajudar na precificação.

Primeiro, pesquise pessoas e empresas em processos ou trabalhos semelhantes ao seu e busque respostas para as perguntas abaixo:

PERGUNTAS >> Como essas pessoas comercializam a arte que produzem? Quais os canais? Quais os preços praticados? E no mercado? Qual é o perfil de quem valoriza a criatividade que você exercita? 

Mas ó, não vale ter tanta autoestima que sua conclusão seja “ninguém faz o que eu faço”. Pode não ser o mesmo bem criativo, mas no mesmo setor da Economia Criativa certamente terá um profissional posicionado mercadologicamente. Esse benchmarketing – método comparativo pelo qual uma empresa analisa a concorrência e como está seu posicionamento no mercado – é necessário.

Depois, faça uma análise do seu operacional e responda as perguntas abaixo:

PERGUNTAS >> O processo de desenvolvimento teve investimento financeiro? Talvez matéria-prima, locação, pré-operação, serviços terceirizados, uso e desgaste de maquinário? E seu tempo investido? E todo capital intelectual que você se esforça para desenvolver? Todas essas variáveis têm um preço referencial no mercado.

E por último, pense como você constrói e valoriza seu “branding pessoal”? O seu preço nessa abordagem te POSICIONARÁ SIMBOLICAMENTE no mercado. Portanto, responda as perguntas abaixo:

PERGUNTAS >> Você tem um site registrado com seu nome? (www.seunome.com); Você tem “dado” coisas que mostram seu conhecimento e talento naquilo que faz? Quanto tempo você se dedica a construir sua imagem como profissional especializado no mercado e na Internet? Como anda sua rede de networking e parceiros na divulgação de seu trabalho? Você sabe se apresentar em 30 segundos? Possui cartão de visita e redes sociais ativas divulgando seu trabalho?

Lembre: a gestão de sua marca criativa pessoal é construída com o tempo, com sua capacidade sucessiva de entrega e sua presença atuante e constante.

Esses são três caminhos práticos para você precificar o seu trabalho, ao menos, um belo início. Quando a gente compreende que há quem viva profissionalmente do que ama fazer e que o exercício cotidiano da criatividade pode ser sua ação financeira principal, aprenderemos a precificar de forma justa nossas crias. Pois analisamos desde a parte operacional da produção daquela criação até a parte simbólica que faz parte da identidade e posicionamento de cada indivíduo em relação ao outro. Faz sentido pra você?

Agora, se você usa a criatividade apenas em seu tempo livre – como um hobby para o desenvolvimento espiritual ou físico – por que não ter um hobby que amplie suas competências e possa lhe dar dinheiro também? Fica aqui, a minha provocação para um próximo artigo sobre transformar HOBBY em DINHEIRO sem perder o prazer de criar e, ao mesmo tempo, continuar usando seu tempo livre com algo que te faz bem.

Uma boa dica de leitura: TOLLE, Eckhart. Um novo mundo – O despertar de uma nova consciência. São Paulo: Editora Sextante, 2007. Compre aqui na Amazon!

Arte da capa: Matt Chinworth

“Faça o que você ama que
o dinheiro vem (ou não)!”

Eu cresci ouvindo essa frase e para falar a verdade: até hoje o dinheiro não veio! Por um tempo, achei que as pessoas que me diziam essa afirmação estavam me enrolando. Tá bom, deve ser difícil fazer todo dia o que não gostamos. Mas também é duro trabalhar com afinco – no que se ama – e não ter retorno financeiro. Como resolver esse dilema?

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